Entre águias e galinhas

Por mais sucesso que tenha, o herói se confronta freqüentemente com uma ameaça. Todo herói tem um arqui inimigo. Lidamos com a queda, com o ferimento, eventualmente até com a morte.
O capítulo terceiro do Gênesis* relata a queda de Adão e Eva, da humanidade enquanto homem e mulher, com a subseqüente expulsão do paraíso. Tal acontecimento não se situa no passado remoto da humanidade, mas no seu presente, no momento atual.
A cada momento caímos de nossos ideais na mais crua realidade. A todo instante nos sentimos exilados e expulsos deste mundo no qual não há lugar suficiente para nossos desejos mais profundos de amor, de liberdade, de compreensão, de compaixão e de paz.
Entretanto, somos livres. A liberdade nos foi dada para moldar a vida e modificar o destino. Na liberdade podemos acolher como rejeitar o paradoxo* de paraíso e queda, de águia e galinha e de vida e morte.
Podemos assumir a queda como desafio para nos auto-superar. Para nos tornar herói/heroína e assim crescer. Como podemos também ficar tão-somente na lamúria, na fuga e na murmuração.
Existem muitas águias entre as galinhas. À força de conviver com elas, a faz também galinha. A natureza singular da águia se encontra sepultada dentro da galinha.
Onde estaria seu coração, a essência mais íntima de toda águia? Uma águia jamais será uma galinha, mesmo que seja a mais extraordinária galinha do mundo.
Não basta apenas libertar-se de. A águia precisa também libertar-se para: para a sua própria identidade e para a realização de suas potencialidades.
Nesses momentos cruciais aparecem os mestres espirituais e as figuras exemplares. Eles têm o condão de evocar, provocar e convocar a natureza essencial adormecida.
A comunhão com Deus
O termo da caminhada da águia é sua penetração no céu. Ela voou até fundir-se com o azul do firmamento. Qual é a meta derradeira do ser humano? Qual é o seu destino final?
Nós não somos Deus, no sentido simples e direto da palavra. Isso significaria panteísmo*, que não respeita as diferenças entre criatura e Criador. Nós estamos em Deus. E Deus está em nós.
Não é esse o sentido secreto do mistério da encarnação vista a partir do cristianismo ? Deus se fez humano para que o humano se fizesse em Deus.
Dando asas à águia
O grande desafio atual é criar condições para que emerja a águia. Poderes mundiais têm interesse em manter o ser humano na situação de galinha. Querem apagar de sua consciência a vocação de águia.
Por isso a grande maioria da humanidade é homogeneizada nos gostos, nas idéias, no consumo, nos valores, conforme um só tipo de cultura (ocidental), de música (rock), de comida (fast food), de língua (inglês), de modo de produção (mercado capitalista), de desenvolvimento (material).
Recusamo-nos a ser somente galinhas. Queremos ser também águias que ganham altura e que projetam visões para além do galinheiro.
Queremos resgatar nosso ser de águias. As águias não desprezam a terra, pois nela encontram seu alimento. Mas não são feitas para andar na terra, senão para voar nos céus, medindo-se com os picos das montanhas e com os ventos mais fortes.
Hoje, no processo de globalização, importa darmos asas à águia que se esconde em cada um de nós. Assim como o sal no saleiro, não muda o gosto da comida, assim a águia no galinheiro não voa nem pensa como águia. Quebre os paradigmas, crie uma revolução. Seja uma águia!

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