O EVANGELHO com cara de "evangelho"

A exortação que Paulo dá à Timóteo está dentro do contexto da sociedade em que ele vivia (2Tm 3.1-13). Aquela sociedade não era, de manei­ra alguma, favorável ao evangelho. E este, por sua vez, não podia ser reformulado a fim de acomodar-se às idéias e padrões daquela época. Pelo contrário, Paulo estava plenamente consciente de que havia entre a Palavra e o mundo uma incompatibilidade radical. "Sabe, porém, isto", escreveu ele: "Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis."
É importante salientar que ao falar em "últimos dias" o apóstolo não estava aludindo a uma época futura que viria logo antes da volta de Cristo. No versículo 5 ele diz a Timóteo que "fuja" das pessoas que ele estava descrevendo. Como Timóteo poderia evitá-las, se elas ainda não tivessem sequer nascido?... Na perspectiva do Novo Testamento, os "últimos dias" começaram com Jesus Cristo. Foi ele quem os introduziu.

Por isso mesmo os últimos dias são os dias em que Timóteo viveu e em que nós também vi­vemos, ou seja, todo o período entre a primeira e a segunda vindas de Cristo representam os últimos dias. E quais são as características dos últimos dias? Quero destacá-las na descrição de Paulo.

Amor mal direcionado. É impressionante ver que, das dezenove marcas distintivas que o apóstolo menciona (vs. 2-4), seis têm a ver com amor: "...os homens serão egoístas [amantes de si mesmos], avarentos [amantes do dinheiro], ...desafeiçoados [sem amor], ...inimigos do bem [não amantes do bem], ...antes amigos dos prazeres que amigos de Deus." A expressão "desafeiçoados" deve ser entendida como "sem verdadeiro amor".

Afinal de contas, as pessoas em vista não são completamente desprovidas de amor: elas amam a si mesmas, amam o dinheiro e amam os prazeres. O eu, o dinheiro e os prazeres são objetos inadequados do amor humano. Eles podem até virar idola­tria, quando tiram de Deus o lugar que lhe é devido como Aquele que deve ser amado com todo o nosso ser. Hoje em dia, porém, o amor mal direcionado está em toda parte. O egoísmo, a avareza e o hedonismo predominam, enquan­to que o primeiro e o segundo mandamentos, de amar a Deus e amar o nosso próximo, são negligenciados. Além disso, quando o amor das pessoas está voltado para o objeto errado, todos os seus relacionamentos ficam errados. Elas se tornam "avarentas, jactanciosas, arrogantes, blasfemadoras, desobedientes, ... ingratas, ... implacáveis, caluniadoras... cruéis" (vs. 2 e 3).

A segunda característica de nossos tempos pode ser chamada de religião vazia. Nossos contemporâneos são descritos como "tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder" (v. 5). Pode parecer estranho que uma pessoa egoísta possa ser também religiosa. Mas acontece. Na verdade, é possível que a religião, cujo propósito é expressar adoração a Deus, seja pervertida e transformada em um meio de alimentação do ego.

O nome certo para essa distorção doentia é hipocrisia, atitude que Jesus atacou veementemente. Tal religião se evidencia em "forma" sem "poder", é uma demonstração exterior sem realidade interior. Portanto, ainda vivemos em uma sociedade desfavorável ao Evangelho, mas ao contrário do tempo de Timóteo, a crise está mais acentuada em nossos dias, vivemos "O Evangelho” com cara de “evangelho.”

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