Viva os mártires modernos!

Uma coisa é a perseguição que os cristãos sofreriam no final dos tempos, segundo declara a Bíblia, outra coisa é a desfaçatez com que algumas “autoridades” pseudo-evangélicas estão tratando o assunto. Cuidado! Pois os atuais mártires cristãos, em nada parecem com um Pedro, Paulo, Policarpo ou Madre Tereza. Paulo jamais ficou preso em uma prisão domiciliar em Long Beach, ou foi pego com US$ 56.000,00 no alforge para gastar com necessidades pessoais. Por quê digo estas coisas???

Estes dias navegava na programação de minha tevê, quando me deparei com seguidores renascerenses (neologismo, mesmo) gritando: “Bispa Sônia, eu te amo!” Essa declaração, veiculada repetidas vezes nos programas da Rede Gospel, emissora de TV ligada à Igreja Apostólica Renascer em Cristo, tem dado o tom do clima na denominação desde a prisão dos seus dirigentes Estevam e Sônia Hernandes. Condenados em agosto pela Justiça americana por terem entrado nos Estados Unidos com 56 mil dólares não declarados, os dois religiosos foram sentenciados a dez meses de reclusão – metade em regime fechado e metade em prisão domiciliar. O juiz permitiu que o casal cumpra a pena alternadamente. Por isso, Estevam, o apóstolo da Renascer, está em um presídio da Flórida, e Sônia, na casa de propriedade da família. Pois é de lá que a bispa participa dos programas, sorridente e esbanjando palavras de fé. Os fiéis, por sua vez, fazem declarações apaixonadas e oram para que a “provação” – assim tem sido tratado o episódio nos círculos da Renascer – acabe logo.

“A estratégia principal do casal tem consistido em fazer-se passar por vítima do diabo e dos inimigos do Evangelho”, diz o doutor em sociologia Ricardo Mariano, um dos maiores especialistas brasileiros em pentecostalismo. Ele é autor do livro Neopentecostais – Sociologia do neopentecostalismo (Loyola). O pesquisador lembra que manobra semelhante foi utilizada por deputados envolvidos no escândalo das sanguessugas, ano passado, quando diversos parlamentares evangélicos foram acusados de desvio de dinheiro do setor da saúde. “O discurso persecutório constitui importante mecanismo para mobilizar a base de pastores e fiéis, para reforçar a coesão grupal e forjar um contra-discurso religioso homogêneo e minimamente plausível a fim de rebater as críticas e acusações externas”, teoriza Mariano.

Para Ricardo Mariano, é o comportamento de muitos crentes que os leva a jogar para escanteio o próprio senso crítico. Segundo ele, a exposição prolongada à visão de mundo elaborada e difundida pelas autoridades eclesiásticas faz com que acabem reproduzindo o discurso que convém à liderança – sobretudo, diante de fatos graves e de difícil justificativa. “Além disso”, continua o sociólogo, “as versões sobre a realidade à sua volta, apregoadas pelos que compartilham a mesma fé, levam muitos evangélicos a rejeitar as informações e interpretações dissuasórias. Daí o relativo sucesso do casal Hernandes e dos demais dirigentes da Renascer em transformar as acusações do Ministério Público de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e estelionato em questões de natureza eminentemente religiosa”.

Assim a Renascer continua renascendo, e quem sabe se solidificando ainda mais, como aconteceu com a Universal do Reino de Deus. Enfim, não existe nada que possa acontecer que abale a “unção” destes homens em relação aos seus seguidores/clientes. Então; Viva aos mártires modernos!

Um comentário:

jaqueline disse...

Gritem os céus...e anunciem os montes...Que os mártires saltem do livro de Hebreus!!!
“Chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, entre o pórtico e o altar, e orem: Poupa o teu povo, ó Senhor, e não entregues a tua herança ao opróbrio, para que as nações façam escárnio dele” (Joel 2.17).