Deixe suas trintas moedas!

Sl 14:3 “Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”.

O que o salmista afirma não é a ausência de bem no mundo, mas a ausência de um bem divino, de um bem sem interesses, que naturalmente (sem a influência de Deus) possa fluir do homem. Existem muitas formas de se praticar o bem.

Posso fazer o bem com intuito ideológico. Quero provar que o bem que faço é o bem certo. É o bem que satisfaz as necessidades do outro. É o bem que me torna, por conseqüência, necessário ao mundo. O que seria do mundo se eu não existisse? É o bem do coração do pai de família, que olha pra sua família e diz: O que será desta gente sem mim? (Esse bem me transforma em uma espécie de deus na terra).

Podemos fazer o bem com o intuito promocional. Podemos fazer o bem com a idéia de nos promovermos como pessoas boas e piedosas. Faço o bem, não pela necessidade do outro em si, mas pela minha promoção como pessoa caridosa e boa.

Podemos fazer o bem com o intuito remissivo. Com a idéia de apagar as minhas culpas e a minha maldade existencial. É o bem promovido pela traficante, promovido pelo político corrupto, que ajuda com o princípio de extirpar seu complexo de culpa, de tirar um pouco o peso da maldade que carrega em todos os outros feitos.

Não há nada de errado nestes formatos de bondade e de benesses, estes atos de alguma forma também glorificam a Deus. Eclesiastes (o primeiro analista da vida) na sua análise afirma: “Descobri que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive” (Ec 3:12).

Mas afirmando a idéia do Salmista, Paulo afirma que o bem que promovemos vem carregado de algum tipo de interesse, ainda que sejam interesses bons, são interesses, pois nossa existência está influenciada pelo pecado (Rm 3: 9-12) Minha bondade não está ausente da minha maldade (Rm 7:21).

Judas Iscariotes era um homem capaz de viver com a bondade suprema sem ser influenciado por ela. Judas viveu em meio a uma grandiosa experiência. A maior experiência de amor, de compaixão, de misericórdia e de bondade, não fora suficiente para tocar Judas Iscariotes.

Judas, o traidor, com certeza é um dos personagens mais emblemáticos do Evangelho, pelo fato da Bíblia relatar sua natureza caída e licenciosa diante de uma experiência tão arrebatadora quanto a que ele viveu. Judas foi capaz de viver experiências de poder e de sobrenaturalidade maravilhosos.
- Judas viu com seus olhos, Jesus acalmar uma tempestade. (Mt 8:25).
- Judas foi investido de autoridade para expulsar demônios. (Mt 10:1).
- Judas foi chamado de “irmão de sangue” pelo Mestre. (Mt 12:49).
- Judas aprendeu as idéias exatas das parábolas e mensagens de Jesus. (Mt 13:36).
- Judas viu duas vezes a multiplicação de pães e peixes. (Mt 14:20 – 15:36).

Judas talvez possuísse outros interesses (estou pegando Judas pra "Judas", pois de alguma forma todos os discípulos estavam com outros interesses também) em seu ministério com Jesus. Judas talvez estivesse pensando que fazer o bem com Deus, significa acima de tudo ser abençoadíssimo e recompensado satisfatoriamente.

Talvez ele tenha questionado esse problema: (Mt 19:23-25). O desejo de Judas talvez fosse este. SATISFAÇÃO. Ele pensava de modo bastante prático, como um moderno capitalista. “O que eu ganho com isso?”
Judas tinha uma preocupação aguçada com o dinheiro desperdiçado. Não que ele fosse exímio administrador. Mas por ser ladrão (Jo 12:3-6).
Judas apesar de viver com Deus, era influenciado pelo Diabo. (Jo 13:2).
Judas fez de seu lugar de adoração o seu lugar de traição. (Jo 18:1-2).
Judas não morreu, mas suicidou-se (Mt 27:5).

Judas foi a personificação do avarento, do mesquinho, do traidor. Do ser humano que usa Deus, que só pensa na dimensão da conveniência, do lucro, da satisfação. Do religioso propagandista, um verdadeiro “Gerson espiritual”.

Com seus atos Judas abdicou para si na história, o posto de traidor. Jamais veremos uma igreja dedicada a São Judas Isacariotes. Alguns estudiosos afirmam que Judas traiu Jesus por 30 estáteres de prata (Cada estáter equivale a quatro denários – um denário era o pagamento dado ao homem por um dia de trabalho. Significa que Judas trocou Jesus por 120 dias de trabalho).

Judas quis fazer do seu jeito. Judas viu que a história estava chegando ao seu clímax. Que Cristo iria ser preso, e morto pelos sacerdotes. Ele não podia ter investido três anos de sua vida em troca de nada. Em troca de coisa alguma – era essa a visão de Judas (e de certa forma, dos discípulos também). Mas Judas traiu deliberadamente, não por medo, mas por ganância.

Jamais podemos comparar a traição de Judas com a de qualquer outro discípulo. Pois todos os outros traíram por medo. Mas Judas traiu pelo lucro, pela satisfação própria. Foi ele quem procurou os líderes religiosos. (Mt 26:14-15). Ele aceitou qualquer oferta – Isso demonstra seu caráter mesquinho. "O que quereis me dar...?" (vs 15). Ele aceitou qualquer coisa em troca da glória de Cristo. E nós o que estamos aceitando, hoje?

A Palavra diz que Judas buscava uma boa oportunidade para trair Jesus (vs 16). O que consideraríamos uma boa oportunidade? Para a traição, para deixar Jesus em segundo plano? Judas era um pragmático. Trocou o útil pelo necessário. Quantos de nós fazemos isso hoje? Quantos de nós trocamos o necessário pelo útil.

Temos a necessidade de orar mais, mas trabalhar mais é mais útil.
Temos a necessidade de fazermos o bem, mas o que vamos ganhar com isso?
Temos a necessidade de dar mais de nós a Deus, mas que utilidade há nisso?
Geralmente agimos como Judas Iscariotes. Preferimos o útil ao necessário.

Em Mt 27:3 a Palavra afirma que Judas foi incapaz de um arrependimento genuíno. Remorso é apenas a tristeza referente a algo que fiz de errado e fui pego. É mais vergonha do ato do que o reconhecimento de que aquilo é errado. Judas estava envergonhado pelo que fez, mas não considerava aquilo errado. Se pudesse o faria de novo.

Gostaria que hoje refletíssemos sobre isso. Muitos de nós, apesar de vivermos com Cristo podemos estar com o nosso coração envolvido mais com outras causas. Podemos também estar carregando nossas trinta moedas. Deixe suas trinta moedas!

Um comentário:

Claudia Gonçalves disse...

Maravilhosa esta palavra. Preciso rever minhas prioridades. Obrigada.