Um sermão para bilionários


O que você vai ler a seguir é um trecho inédito de Você Está Louco! -- Uma Vida Administrada de Outra Forma, o livro do dublê de guru e empresário Ricardo Semler, editado pela Rocco. Com um tom confessional em que entremeia experiências pessoais e viagens exóticas com idéias heterodoxas sobre economia, administração e educação.

David Rockefeller, admirador do Brasil, certa vez me convidou para fazer um workshop com os 100 clientes mais ricos de seu Chase Manhattan Bank. Seria em Paris, no Hotel Ritz, com eventos sociais intensos, começando com Barbara Hendricks cantando para eles no Salão dos Espelhos de Versailles -- e por aí afora. Eram, claro, 100 bilionários. Para dizer a verdade, dois tinham apenas algumas centenas de milhões e eu reclamei com os organizadores dizendo que não estava acostumado a lidar com gente de menor poder aquisitivo. Meu interlocutor não entendeu a graça e passou alguns minutos se desculpando que esses dois haviam sido incluídos a pedido do private bank deles. O outro palestrante era George Bush, pai, e almoçamos juntos, discutindo a turma de convidados e como iríamos concatenar nossas falas. Resolvi que falaria com eles a respeito do sentido da vida. O diretor do banco ficou preocupado. Como em todas as minhas palestras, não havia script entregue antes da data, que quase todos os organizadores querem ver. Incluo assuntos lidos no jornal da manhã e ouvidos dos convidados pouco antes da palestra. É claro que isso deixa os organizadores mucho nerviosos, mas é vital para meu estilo de falar sobre algo relevante e atualizado.

Iniciei pedindo um levantamento de quem éramos. Os 100 ricaços, vestidos impecavelmente e distribuídos em poltronas de veludo vermelho pelo salão nobre e dourado do Ritz, me olhavam com desconfiança. Primeiro perguntei quantos deles haviam começado seus negócios com uma cifra como objetivo da empreitada -- apenas quatro eram herdeiros. Quase todos levantaram a mão. Na seqüência, perguntei quantos enxergavam seus negócios tendo como objetivo ganhar dinheiro ou, como se diz hoje em dia, reforçando o valor dos acionistas. Todos, exceto um, levantaram a mão. Pedi que cada um usasse o bloquinho fornecido para escrever a cifra que haviam colocado como alvo no começo de carreira. Em seguida, pedi que levantasse a mão quem havia superado a marca almejada, e cerca de 90 o fizeram.

"Pergunto", sussurrei com minha voz mais meditativa, "qual a razão para vocês levantarem toda segunda de manhã e irem ao escritório se já atingiram seu objetivo de vida como empresários?" Silêncio sepulcral. Uma tímida mão se ergueu. "Porque temos também um sentido social, queremos retornar algo à comunidade."

"Ah", retruquei, animado, "então vocês geram empregos, que são vitais para a sociedade, o que os enche de responsabilidade?" A maioria dos queixos balançou vigorosamente, e um alívio desanuviou o ambiente. Perguntei para onde iriam esses empregos se a empresa deles deixasse de existir: seriam simplesmente eliminados da face da Terra ou essas vagas seriam repostas por concorrentes que usurpariam a fatia de mercado em questão? Completei citando um estudo da Duke University em que ficou demonstrado que o nível de emprego global em nada depende do sucesso individual das empresas. Se o ramo está bem e alguém precisa do produto, haverá emprego. Se a empresa faz bobagem, um concorrente toma a fatia de mercado e contrata as pessoas. Se a tecnologia muda, a indústria como um todo demite e, muitas vezes em outro país, outras empresas contratam para entregar a nova tecnologia aos antigos clientes da empresa que demitiu. O resultado líquido é sempre perto de zero, e o que uma empresa faz individualmente não é relevante para o quadro de empregos.

Novo silêncio constrangedor. "Será então", disse com otimismo, "que a responsabilidade social de vocês se dá por meio de filantropia e devolução de dinheiro à sociedade?" Novamente os acenos, dessa vez mais desconfiados. "Quantos de vocês", continuei, "já doaram grandes quantidades de dinheiro, ou obras de arte, à sociedade?" Quase a totalidade acenou, entusiasmada. "E", investiguei com certa falta de tato, "quantas dessas doações foram feitas anonimamente, quantas alas de hospital ou de museu chamam-se agora Ala Anônima em homenagem à quantia que doaram?" Ninguém levantou a mão. Segui dizendo que, se as doações revertiam para a vaidade da família ou em prol da imagem da empresa, não haveria como aferir se eles tinham mesmo senso de responsabilidade social, o que deixava novamente em aberto a questão da motivação de ir ao trabalho toda segunda-feira. Nessa hora sugeri que talvez aceitassem que a razão não seria encontrada nos livros de administração e nos gurus de business, mas sim nos escritos psicanalíticos de Freud, Jung e R.D. Laing. "Vocês vão ao escritório toda segunda-feira para satisfazer a necessidade de sentir que estão vivos, que têm algo a cumprir enquanto estiverem na Terra, que seus talentos precisam de vazão. Vão trabalhar por questões de auto-estima e por não entenderem a razão pela qual estão vivos, nada mais -- e compreender isso com franqueza alivia muitas das sensações falsas que vocês dão como explicação fechada e resolvida."

Enfatizei que nunca havia conhecido alguém que fosse trabalhar apenas pelo dinheiro. Olharam-me com sobrancelhas levantadas, como se todos conhecessem dezenas de pessoas assim. Repeti que havia encontrado muitas pessoas que acreditavam ir trabalhar pelo dinheiro, mas que uma análise mesmo superficial já demonstrava não ser o caso. Dinheiro é instrumento de escambo. Em outras palavras, só serve para ser trocado por outra coisa. Não é de sua natureza -- como instrumento -- ficar parado. Dinheiro em excesso, como gasolina estocada num posto, é inflamável. Ganho em demasia vira um risco. Não é por outra razão que empresas que detêm caixa generoso, acima das necessidades previsíveis de capital, não conseguem mantê-lo em tesouraria por muito tempo. O conselho de administração, os executivos ou os acionistas encontram o que fazer com ele. Do excesso de caixa, inclusive, vêm muitas das maiores bobagens já feitas no mundo dos negócios. É nessa hora que surgem aquisições desnecessárias, fábricas faraônicas que depois ficam ociosas e planos de expansão de mercado fadados ao insucesso. Na melhor das hipóteses, esse dinheiro é distribuído aos acionistas e vira mansões, helicópteros e carrões. Muitas vezes, vira filantropia. O desperdício no ramo da filantropia, aliás, é outro exemplo do que o excesso de caixa pode gerar de desvios de bons propósitos. É só ver como as verbas, mesmo de empresas privadas, vão parar em projetos sem mérito ou apresentados por amigos e conhecidos, e a dificuldade intransponível de pequenos projetos com pé no chão ser financiados.

Basta ver biliardários como Bill Gates e Ted Turner, que demonstram os desvios que ocorrem quando há excesso de caixa. No começo, doam-se obras de arte, pergaminhos de Leonardo da Vinci e alas de hospitais. Mas, quando a fortuna continua aumentando, as dificuldades aumentam. Ficar doando de 1 milhão em 1 milhão de dólares não chega a distribuir o juro diário do dinheiro. É preciso encontrar projetos maiores. Turner financiou a recuperação do bisão americano, coisa de dezenas de milhões de dólares, mas em nada diminuiu sua fortaleza de Tio Patinhas. Em algum momento, todos eles, por questão de imagem e por ficarem perplexos com o que fazer com tanto dinheiro, chegam à mesma solução que as misses Universo: desejam a paz mundial. Tal qual tivessem descoberto Saint Exupéry e O Pequeno Príncipe, concluem que são responsáveis por tudo que cativam. Como cativaram o mundo, nada mais justo do que salvá-lo e gerar paz na Terra. Ted Turner e Bill Gates doaram, cada um, coisa de 1 bilhão de dólares à ONU e a projetos de paz no mundo. Ora, poucas doações são mais inócuas, dólar por dólar, do que à ONU e a institutos de paz mundial. Certamente é uma piada destinar bilhões de dólares a programas que envolvam burocracia institucional e quase duas centenas de países opinando. Mas é a solução de miss Universo (...).

Estocar dinheiro é contrário à nossa natureza, aparentemente. Quem já não fez o orçamento doméstico do ano seguinte prevendo poupar 12% da renda e terminou o ano com 8% negativos? Claro. No caminho, vamos achando coisas pelas quais queremos trocar o dinheiro, como se fosse escambo. Primeiro comida, depois casa, com aparelhos domésticos no meio do caminho, depois carro, viagens e assim vai. Estocar dinheiro é contrário à nossa natureza, aparentemente.

E fazer o dinheiro circular, seja comprando coisas, seja devolvendo de alguma forma às pessoas em volta, é talvez necessário. Orientais, árabes, africanos e indianos não mostram ter dúvida disso. Parece uma invenção ocidental, esta de acumular dinheiro no banco sem saber o que fazer com aquilo tudo. Mas, como vimos com Gates e Turner, ninguém sabe apenas estocar. Rapidamente perde, troca ou entrega de volta -- por questões de avareza ou vaidade, tanto faz.

Tem gente que leva a coisa do dinheiro a novas fronteiras. Certa vez, fui a um encontro curioso no sul da França. Tratava-se de um grupo árabe, baseado em Bahrain, formado por um xeque que havia convocado os amigos para um clube de investimentos. Era uma ação entre amigos. A pingada de cada um, porém, limitava o tipo de amigo: 20 milhões de dólares. Juntaram 50 amiguinhos, e com 1 bilhão de dólares saíram às compras. Comprar lojas de departamentos americanas, como a Saks, relojoarias suíças, como a Ebel, e uma dezena de redes de hotéis, fast food e varejo. Era uma turma que se divertia. Sofia e eu chegamos ao hotel de luxo que eles haviam fechado, depois de ver, na pista do aeroporto de Nice, um engarrafamento de dezenas de jatos particulares -- todos desse grupo. Ao jantar, fui sozinho, mulheres não estavam convidadas. Da cozinha vinham garrafas de tamanho especial -- conhecidas no ramo como metusaléns e jeroboams, com 5 a 10 litros de vinho cada uma -- de anos fabulosos, como 1929 e 1945. Com o detalhe de que nenhum dos árabes encostava em bebida, era apenas para os três ou quatro ocidentais que ali estavam. A meu lado sentaram-se dois xeques, um dos quais um saudita famoso.

Começamos a falar de riqueza, e perguntei como faziam para que seus filhos tivessem uma vida mais normal. Um deles respondeu que fazia questão de que eles fossem à escola a pé, como as outras crianças, e que andassem de ônibus. O outro, que tinha filhos adolescentes, concordou que era importante que não fossem muito mimados. O primeiro, espantado, retrucou: "Mas a sua filha está fazendo 18 anos, pediu um Airbus cor-de-rosa, e você vai dar!" "Sim, bem...", disse o outro um pouco constrangido, "mas também não posso negar tudo aos meus filhos." Depois soube que o filho, que não tem carta de habilitação, guarda no quintal uma coleção de 17 Ferrari.

Dinheiro, portanto, serve a necessidades, depois a desejos, emoções e excentricidades que um saldo de conta bancária impresso não fornece. E, como disse, nunca conheci alguém que trabalhe apenas por dinheiro, mesmo que ache que o faça.

Nenhum comentário: