Descrente de alguns crentes, mas nunca de Deus!

Recentemente fiquei chocado ao conhecer um trabalho que acontece no interior de São Paulo, chamado: “Casa de Restauração Ministerial”. Uma ONG que ajuda pastores desiludidos com o ministério. Isso mesmo! Uma organização que atende pastores mortos pela pressão ministerial que vivem e que freqüentemente não suportam a exigência de seus líderes, tratados como vassalos pelas suas organizações, já não querem mais o seu chamado, nem admitem sua vocação, alguns até não crêem mais na igreja.

Mas antes de falar qualquer coisa, gostaria de refletir sobre algo que acontece nos bastidores das igrejas evangélicas brasileiras. Muitas denominações e ministérios nasceram da rebeldia particular e da tentativa de adaptar a Bíblia a uma vontade pessoal e não em coerência com a verdade bíblica. Quando não damos conta de negar nosso afã egocêntrico e seguir a fé corretamente, partimos para nossa criação do que precisamos e entendemos que é essencial para o mundo. Abraçamos uma espécie de esquizofrenia messiânica.

Uns afirmam que tiveram visões divinas, outros aparições de anjos e vozes celestiais, e como cada um depende da fé do outro para se firmar, encontram em mentes férteis desesperadas por crer, o terreno perfeito para a execução de seus planos e projeções pessoais. Tornam-se porta-vozes de Deus para aquela denominação ou ministério.

Criam-se os chamados “ministérios personais”. Em que toda teologia, doutrina e ênfase, é estabelecida pelo líder maior, um quase Papa Evangélico. Muitos ao procurar redesenhar ou questionar as práticas e opiniões são coagidos a “entenderem” que aquilo é a “visão de Deus” e ponto final, e que, caso ele não esteja “dentro da visão”, sua vida será fraca, de dificuldades e de rebeldia. Pois ele está questionando o “ungido” de Deus. Isto é um ultraje, e uma distorção da vocação pastoral e do chamado de Deus para o homem.

Reconheço que meu discurso é inadequado para a maioria dos religiosos, para os profissionais da religião, para os eclesiásticos, Pois esta reflexão toca nos “sonhos” tornados realidades ideais, sonhos estes pagos pelos que já foram chamuscados pela ira destes líderes ou pelos desavisados que inocentemente almejam um lugar no ministério, e que sustentam o estilo de vida do líder, sua ideologia e cegamente seguem suas determinações.

Meu pensamento pode parecer até anárquico, pois desarruma coisas tradicionais, adquiridas, consagradas, legalizadas, e institucionalmente reconhecida por muita gente. Mas, sei também que há algumas pessoas que sentem o peito oprimido, que buscam mais oxigênio, mais espaço, mais liberdade e que arriscam viver na incomoda situação de insegurança mesmo dentro das instituições as que pertencem.

Muitos quando vão sair, saem tarde, saem feridos, desiludidos, acabados em sua integridade moral, destituídos da realidade do perdão e do consolo, saem mortos e precisam de trabalhos como desta ONG, que restaura líderes, que restaura descrentes de crentes. A estes despedaçados pelo ministério quero deixar uma palavra amiga.

Você pode até abandonar uma visão ministerial, sem nunca deixar de seguir o Caminho. Tornam-se descrente de crente, mas sem tornar descrente de Deus e nem da sua igreja, pois Deus derrama sua Graça. Pois tenho entendido a célebre frase de Philip Yancey, em seu livro “Maravilhosa Graça” quando diz: “Rejeitei a igreja durante algum tempo porque encontrei bem pouca graça ali. Voltei porque não descobri graça em nenhum outro lugar”.