Entrevista a revista Célebre - Divórcio! Quem disse que é errado?

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Ainda hoje um dos maiores tabus na igreja evangélica, e que causam não só divergência, mas que sobretudo, compromete a felicidade e o futuro de uma pessoa, é a questão do divórcio. O que pensar sobre o divórcio? Obedecer ao texto bíblico de Mateus 19:6 “Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem”, é suficiente para sustentar uma relação infeliz ou que fere outros princípios como respeito, companheirismo e saúde física e emocional?

Para esclarecer este assunto, consultamos o Pr. Bruno dos Santos, um teólogo contemporâneo, consultor de obras acadêmicas em língua portuguesa, professor nas áreas de Novo Testamento e Teologia Sistemática, escritor e conferencista nas áreas de liderança e vida cristã. Ele exerce o pastoreio da Conexão Vida Associação, uma igreja de Missão Integral na zona Leste de São Paulo. Natural de Portugal é casado com Silvia Regina e pai do Lucas, da Laís e Ana Luiza. Nesta entrevista, ele expõe sua opinião e quais princípios bíblicos devem ser observados acerca do divórcio.

Revista CELEBRE: Pr. Bruno, o que o Senhor pensa a respeito do divórcio? E por que apesar da maioria das igrejas evangélicas não o aceitarem, cresce o número de divorciados no meio evangélico?
Bruno dos Santos: Creio que a igreja está isolada em um paradigma que já não responde a realidade social presente. A igreja não trabalha mais a premissa da prevenção nos relacionamentos. Eu pessoalmente, não enxergo o divórcio como uma possibilidade qualquer, mas como a última instância de uma relação falida, em que a dureza do coração de um ou de ambos, rompeu com o respeito e até mesmo com o amor próprio, inerentes em uma relação saudável. A Igreja deveria possuir uma posição de prevenção nos relacionamentos investindo pesadamente em cursos e programas para casais e novos casais, evitando assim ter que trabalhar esta questão, e não permitindo que seus membros cheguem a última instância da relação, que é o divórcio.

RC: Realmente existem textos bíblicos que evidenciam essa “liberdade” para se divorciar?
Bruno dos Santos: Aqui precisamos salientar alguns pontos importantes que esta pergunta envolve. Todos os textos que falam do divórcio possuem um objetivo direto, a moralização do tema entre os homens. Precisamos compreender que as civilizações antigas, em sua maioria eram patriarcais e davam apenas ao homem a oportunidade de escolha. Não posso simplesmente pegar um texto fora do contexto como pretexto, para afirmar aquilo que penso. Além da pesquisa do texto em si, preciso analisar conceitos e valores culturais. As civilizações mais antigas não davam a mulher qualquer chance de sobreviver longe do casamento. Uma mulher repudiada era uma pessoa morta, socialmente falando, sua vida estava sempre a mercê daquele que a podia repudiar. Os homens se separavam por motivos banais, como por exemplo, uma comida fria ou sem sal. Imagine o número de casamentos que terminavam por puro egoísmo masculino. O que Deus faz é colocar normas para a separação e não negar essa possibilidade. Até Deus, de uma forma alegórica, afirma ter dado uma carta de divórcio ao reino do Norte (Jr 3:8). Isso demonstra que a possibilidade de uma relação falir é um fato real para Deus.

RC: Algumas igrejas impõem que só deve haver separação se uma das partes cometer adultério, outras exigem que se perdoe e que em nenhum caso deve haver separação. Permanecer casado e infeliz, não é “errado” tanto quanto se divorciar?
Bruno dos Santos: Veja bem, o alvo do casamento segundo a perspectiva bíblica não é a minha alegria, mas a alegria do outro. Minha felicidade é fazer o outro feliz. Se na minha relação, eu priorizo a minha felicidade na frente da felicidade do outro, então sempre estarei infeliz, pois como posso desejar colher algo que não planto. A diferença básica do namoro para o casamento, é que no namoro o amor sustenta a relação, enquanto que no casamento a relação sustenta o amor. Todo casamento atravessa crises de compreensão, sem crise nenhuma relação pode amadurecer. Creio que nenhum líder ou igreja está autorizado a determinar o que é certo ou errado, uma vez que a relação envolve apenas o casal, e apenas o casal consegue ponderar a gravidade da relação que vive. O nosso papel como comunidade terapêutica é apoiar a decisão do casal e levá-los ao melhor desfecho possível, seja ele qual for.

RC: E em sua opinião, quais motivos justificariam um divórcio?
Bruno dos Santos: Essa é uma pegadinha! (risos...) – Na verdade essa foi à pergunta feita para provar Jesus, pois ele estava desenvolvendo seu ministério na jurisprudência de Herodes Antipas, que havia decapitado João Batista por acusar o seu adultério com Herodias. Os fariseus fizeram essa pergunta a ele no Evangelho de Marcos, no capítulo 10. Essa pergunta tinha o propósito de prejudicar Jesus diante de Herodes e do povo. Enfim, não existe uma lista ou mesmo um parâmetro bíblico. Todas as tradições apóiam a idéia de um antigo raboni chamado Hilel, em que a única razão plausível era o da infidelidade conjugal. Mas creio que uma justificativa mais coerente com o ideal bíblico seja quando o casal deixa de ser “uma só carne”, segundo Gn 2:24. Essa expressão unifica o vínculo da relação, uma só carne é mais do que sexo, uma só carne é alma entrelaçada, é unidade de pensamento e de propósito. Quando o adultério acontece, é porque a plenitude da relação já se esvaiu a muito. O adultério é apenas o sinal de que tudo já estava mal.

RC: E como saber se o divórcio é certo ou não em algumas situações não citadas?
Bruno dos Santos: O divórcio não é uma questão do que ocorreu ou não com o casal, mas uma questão da dureza do coração. Aplicar o divórcio não depende do ocorrido, mas do coração de quem sofreu ou sofre por algum motivo. Já tratei casais em que apesar do adultério dele, a mulher o perdoou e a relação deles foi ainda melhor do que antes, a relação foi despertada por este incidente, que evidentemente produziu algumas feridas, mas os dois prevaleceram sobre o ocorrido, mas também já apoiei uma separação, pois sabia que se a relação continuasse os dois poderiam chegar a se agredirem fisicamente, eram apenas rancor um com o outro e não houve nenhum sinal de reconciliação. Portanto não depende de quem errou, mas de quem está disposto a perdoar, se esta possibilidade não acontecer então o divórcio é a única alternativa. O divórcio é o ajuste para a fraqueza humana quando ela desrespeita a vontade de Deus. Pois sabemos que se ele não for aceito em nosso meio precisaremos conviver com conseqüências ainda mais cruéis.

Deus Abençoe cada um ricamente. A Ele toda a Glória.

4 comentários:

Paulo e Fátima disse...

Ótima entrevista e esclarecedora para nós que somos de uma igreja e os dois já se divordiciaram.
Que deus continue te usando pastor Bruno.

Aline disse...

Infelismente ainda vivemos numa era de julgo...Onde manter as aparencias é o que importa mesmo que isso signifique a propia infelicidade...Amei a entrevista e concordo quando ele fala que as igrejas tinha que investir um pouco mais nos casais para evitarem esses tipos de problema como o divorcio.

jaqueline disse...

Percebe-se que ainda existe muito do pensamento catolicista pairando nos conceitos que envolvem esta questão do divorcio.Onde a mulher era a maior prejudicada,pois embora soubesse das traições,vivesse as humilhações...Jamais poderia pensar no divorcio..."Ruim com ele?Pior sem ele"...este era o lema.
Louvo ao Senhor pelas mentes renovadas de muitos que têm se levantado na casa de Deus.

Anônimo disse...

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- David