SANTO: Kadosh (קדוש)

Segundo a tradição rabínica, o tempo não é um espaço contínuo, mas possui um sentido diversificado. Não há duas horas iguais, cada hora é única e exclusiva. Esse sentido mítico do tempo torna-o santo. Portanto a primeira coisa, o primeiro objeto que Deus santificou, não foi uma pedra, montanha ou altar, mas foi um dia, um tempo, o “Shabat” é esse tempo separado para dar a importância e a atenção devida ao Todo Poderoso. 
A idéia primordial do Shabat é sair da tirania do tempo cronológico. Seis dias por semana vivemos debaixo da ordem dos horários e datas, mas no Shabat partilhamos do eterno, do espiritual. No Shabat, o judeu cessa o temporal e se dedica ao descanso no Deus Criador de toda a terra.
O termo Kadosh é usado mais de 600 vezes no AT. Mas esta foi a primeira vez que a palavra Kadosh (santo) foi usada: “E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera.” (Gn 2:3). Isso torna o tempo distinto, pois é a única coisa em toda a criação que Deus dota com a qualidade da santidade. Este versículo é significativo porque Deus não criou um lugar sagrado, depois de haver criado tudo. Ele estabeleceu Sua Santidade no tempo. Quando a história começou havia apenas uma coisa sagrada no mundo criado, o tempo, o sábado, o que vem primeiro e antes de tudo.
Portanto, a essência da palavra Kadosh (santo) significa separação, distinção. Aqui precisamos destacar que a palavra separação ou distinção não significa afastamento ou ruptura das coisas, mas elevação e superioridade. 
Quando Deus nos convida para a santidade (Lv 19:2), Ele espera de nós o papel que nos foi encarregado sobre a criação, sermos seres superiores, sairmos da média comum estabelecida pelos sistemas sociais imperfeitos. Ser santo, é estar acima das linhas que nivelam a maioria, é tornar-se um exemplo, um guia, uma referência do Carácter Santo de Deus na terra. É sair do temporal e mergulhar no eterno.
Por isso, quando Deus nos convida a ser kadosh, precisamos olhar para as qualidades Dele, e seguir copiando tudo que Deus faz que o torna Kadosh. Se Deus ama, precisamos desenvolver nosso amor, se Deus é criativo, precisamos desenvolver nossa criatividade, e assim por diante. É a Santidade em Deus que nos inspira para andar em santidade de vida. Santidade não é um alvo à alcançar, mas uma forma  de como se  deve viver, e por isso o apóstolo Pedro quando escreveu sobre a santidade, começou com um verbo imperativo: “Sede Santos, como Eu Sou Santo” (1Pe 1:16).
Termino com as palavras do rabino Abraham J. Heschel, que diz: “Santidade não é um estágio espiritual que desejamos atingir, mas um estilo de vida que nutrimos todos os dias, pensando, sentindo e agindo de modo compatível com os princípios divinos.”

Um comentário:

Daniele disse...

Muito interessante pastor.
A compreensão de muitos (inclusive a minha) era limitada ao termo generalizado de ser santo. Ninguém consegue se ver "santo" porque para muitos santos são os padres e madres que estão em mármore em praças e igrejas.
Obrigada por estas palavras, abriu os meus olhos a um novo entendimento.