ENTREVISTA PARA O PRIMEGOSPEL


O Jornal Prime Gospel entrevistou neste mês o Pr. Bruno dos Santos, teólogo contemporâneo e diretor da Universidade Vida na Mooca, além de pastor da Igreja Vida Nova, uma das maiores comunidade da Zona Leste de São Paulo. Sua entrevista marcou uma nova linhagem de pensadores e líderes na igreja hodierna. 

PRIME GOSPEL: Qual o problema da “estagnação” de muitas igrejas hoje?
Bruno dos Santos: Muitas igrejas já não procuram experimentar novas possibilidades comunitárias. Vivem sem um resultado satisfatório, pois sempre caem em uma rotina comum que eu chamo de “templolatria”, isto nada mais é do que uma vida religiosa voltada e dedicada apenas a igreja-templo que acontece aos domingos ou em festas específicas, mas que não produz uma transformação profunda na vida cotidiana e no caráter do indivíduo. Seguir modelos ou métodos ajuda, mas não te leva ao caminho ministerial ideal para a comunidade local. Geralmente esse caminho é confirmado passo a passo pelo Senhor, através da oração e da contextualização das Escrituras para hoje. Muitas vezes por falta de entendimento o pastor e até mesmo a igreja, desanima e duvida da sua vocação ministerial. Paciência, estudo, graça e humildade ainda são as melhores ferramentas para obter resultados expressivos na vida da comunidade local.
PRIME GOSPEL: Como escolher o “nome” de uma igreja?
Bruno dos Santos: Geralmente os nomes são tirados das mais diferentes idéias. Hoje na igreja se fala pouco do compromisso comunitário e da identificação local. Mas aprendemos que para haver unidade é preciso antes haver compromisso em amor, isto significa ter um comprometimento de corpo e alma em todos os princípios que nos unem como comunidade, fazer a escolha de ser o melhor irmão, sem esperar estar na melhor igreja, pois a mesma só vai acontecer nos céus. Existe uma frase que gosto muito: A igreja é uma comunidade de pecadores, sendo dirigida por um pecador maior ainda. E essa é uma grande verdade! A idéia de comunidade (comum-unidade) também pode ser entendida como “articulação” ou seja, aquilo que consegue fazer o conjunto ou as partes do todo trabalharem. Estou convicto que a comunidade desejada por Deus, não está em um templo, edifício ou em uma únida pessoa, mas essa comunidade acontece quanto as partes se articulam visando o crescimento e a edificação mútua e honrando o Cabeça, que é Cristo. Precisamos de um espaço geográfico para fazer, mas não para ser uma igreja, pois o templo é o próprio coração do homem. O nome carrega um sonho, um ideal, e é isso que as pessoas precisam perguntar quando colocam um nome em uma igreja. Qual é o ideal de Deus pra nossa comunidade?
PRIMEGOSPEL: Qual é a sua opinião sobre os modelos tradicionais e institucionais das igrejas cristãs?
Bruno dos Santos: Algumas pessoas acreditam que como “neo-pentecostais” (classificação puramente sociológica) somos contra os modelos tradicionais e institucionais da igreja, mas isso não é verdade. Nós apenas não acreditamos que a instituição ou tradicionalismo sejam maiores ou mais prioritários para Deus do que as pessoas. Nós sabemos que em muitas igrejas, pessoas são menos importantes que programas, sabemos que campanhas são usadas para promover recursos para a reforma e construção do templo, e pouco para missões ou assistência social, e que muitos irmãos estão desassistidos pela igreja local. Enfim, existe um pesado número de erros perpetuados na história da igreja evangélica brasileira que precisam ser revistos. Recentemente estive em um seminário para pastores falando sobre o princípio da desconstrução institucional, como o início de uma reavaliação de prioridades e ideais eclesiásticos. Creio que a igreja como “um todo” precisa de uma nova reforma. Pentecostais, históricos e neo-pentecostais precisam unir suas melhores partes em uma igreja que se articula para a manifestação mais clara do que é o Reino de Deus.
PRIMEGOSPEL: O que a sua Igreja (Igreja Apostólica Vida Nova) faz, que difere das outras igrejas?
Bruno dos Santos: Na verdade não fazemos nada de diferente, no sentido de criar a "última novidade", mas estamos tentando resgatar alguns dos valores iniciais perdidos ao longo do tempo. O primeiro deles é a descentralização de poder espiritual, muitas igrejas focalizam a manifestação do poder apenas em um pastor ou líder carismático, enquanto que nós acreditamos que todos recebem capacitações espirituais que são dadas mediante a vontade do Espírito Santo aos crentes. O segundo valor é o sentido de pertencimento a comunidade local, é preciso haver mais comprometimento com as pessoas que estão na igreja local em todos os sentidos. É preciso mais amizade, mais companheirismo, mais espiritualidade uniforme. Queremos resgatar o sentido de unidade na diversidade. O terceiro valor resgata a Palavra equilibrada com a vida, procurando viver o que se prega, trabalhando o nosso caráter e deixando de ser apenas um mero ouvinte para ser um praticante, um entusiasta da fé cristã. Estamos investindo pesadamente em estudos bíblicos e teológicos em nossa igreja hoje.

PRIMEGOSPEL: Como vocês enxergam o cenário evangélico no país? As pessoas não estão cansadas da igreja?
Bruno dos Santos: Bem, infelizmente o cenário não é o ideal que nós queríamos para a Igreja Evangélica, mas creio que todas as coisas que estão acontecendo são necessárias para uma transformação real. Algumas pessoas estão ansiosas por um despertar espiritual. Não creio que aqueles que verdadeiramente buscam a Jesus estejam cansados da igreja, mas sim dos modelos institucionais, das visões excêntricas e da ênfase na troca de favores com Deus. Conheço algumas pessoas que apesar de enxergarem erros em suas denominações e igrejas, estão em um grande compromisso de intercessão, sem deixar de lado a reflexão através da Palavra e dos acontecimentos. Deus está agindo soberanamente a despeito do que a igreja faz de errado, e também está colocando um inconformismo no coração de alguns líderes, isso gera mais palavra, mais ação e mais compromisso com Deus. Este cenário promete bons frutos em um futuro próximo.
PRIMEGOSPEL: Existe muita ênfase nos dons, principalmente na profecia, mas isso parece que tem causado mais mal do que benefícios, como vocês lidam com os dons na igreja local?
Bruno dos Santos: Por enquanto, todos os membros de nossa comunidade estão dedicados a estudar mais profundamente os dons através de cursos ministrados em nossa igreja. Acreditamos no exercício dos dons e na necessidade deles hoje na igreja, mas a nossa ênfase está na Palavra Pregada e na vida de testemunho que seja coerente com aquilo que pregamos. A igreja de Corinto trouxe grandes problemas para o Apóstolo Paulo, pois era uma igreja riquíssima em dons, porém pobre em testemunho, eram meninos espirituais. Hoje entendemos que dons (carisma) sem maturidade (caráter) trazem grande confusão para dentro da igreja local, é preciso encontrar o equilíbrio que acontece mediante a reflexão da Palavra de Deus.
PRIMEGOSPEL: Em sua opinião; o que significa ser pastor hoje em dia?
Bruno dos Santos: Um grande privilégio, mas também uma grande responsabilidade espiritual. Primeiramente precisamos conviver com as críticas e até mesmo com a falta de compreensão, mas apesar disso, precisamos entender que somos chamados para cumprir os propósitos de Deus e não os nossos, e que Ele é quem nos capacita e nos dá condições para suportar todas as lutas que atravessamos, afinal as Escrituras dizem que seremos cobrados por cada palavra que sair de nossa boca, e isso só acontecerá porque o Senhor tem nos dado uma capacitação especial para fazer aquilo que fazemos. Mas ser pastor também é um grande privilégio, afinal, pessoas confiam sua vida e seus segredos à você e isso é muito gratificante. A confiança que as pessoas nutrem por você é um sinal de que o seu ministério carrega a chancela de Deus.
PRIMEGOSPEL: Que mensagem o senhor gostaria de deixar para as pessoas que leram esta entrevista?
Bruno dos Santos: Gostaria de dizer que a Igreja Vida Nova é uma comunidade de grandes amigos. Como diz o meu pastor Willy Garcia, estamos buscando alcançar o ideal cristão, ainda não alcançamos, mas estamos perseguindo este alvo. O grande problema não é errar, mas jamais se arrepender de ter errado. Nestes últimos meses temos experimentado um crescimento maravilhoso, mas não queremos incorrer no erro de estabelecer expectativas erradas sobre pessoas ou lugares, portanto não entre em uma igreja esperando algo, mas nem por isso se anule como pessoa, seja cheio de vida, cheio de alegria, afinal a nossa esperança não está em homens ou em lugares, mas naquele que vive e reina para sempre, Jesus Cristo! Que Deus possa abençoar ricamente cada passo da sua vida.

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