UMA REFLEXÃO SOBRE O JUGO DESIGUAL


No meio evangélico o termo “jugo desigual”, geralmente se aplica ao casamento com alguém que não seja evangélico, ou em alguns casos mais fundamentalistas, que não seja da mesma denominação. Bem, o fato é que o princípio desta postura baseia-se em achar que não há jugo desigual entre os membros que professam a mesma fé, pois todos são “crentes” e estão debaixo das mesmas “doutrinas” ou regras. A má compreensão que aborda o tema geraram cabrestos, extremismos, controle asfixiante, emocional e religioso em muitas pessoas. Isto é aquilo que na teologia chamamos de doutrinas neurotizantes.

Vamos usar um texto bem conhecido da Bíblia:
Não se ponham em jugo desigual* com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas? (2 Coríntios 6:14 - NVI)

Este texto não nos deixa claro a que tipo de relação o apóstolo encara como jugo desigual, e podemos incorrer nos seguintes erros: ou uma leitura superficial ou descuidada nos levará a pensar que ele trata de qualquer tipo de relação. Não obstante, não podemos esquecer o principio hermenêutico que diz: Texto, sem contexto é um pretexto para a heresia. Assim, precisamos analisar este texto a luz do seu contexto, que é tudo quanto há antes e depois do texto, podendo ser os versículos do mesmo capítulo ou o livro todo ou até mesmo toda a Bíblia. É por isso que se costuma dizer que as Escrituras são um todo coerente.

Vamos tomar mais um texto aos mesmos coríntios como contexto ou chave para entendermos a que tipo de relação o apóstolo Paulo reconhece como jugo desigual:

“Já lhes disse por carta que vocês não devem associar- se com pessoas imorais. Com isso não me refiro aos imorais deste mundo, nem aos avarentos, aos ladrões ou aos idólatras. Se assim fosse, vocês precisariam sair deste mundo. Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar- se com qualquer que, dizendo- se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas vocês nem devem comer. Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro? Deus julgará os de fora. “Expulsem esse perverso do meio de vocês”. (1Coríntios 5:9-13 - NVI)

De acordo com Paulo se não tivéssemos que ter nenhuma relação com não-cristãos deveríamos sair do mundo, visto que por estarmos no mundo nós sempre teremos contato com eles no trabalho, na escola, na universidade, na rua, na vizinhança, no lazer, etc. Então, com quem não devemos nos relacionar nestas áreas citadas? Com aquele que se dizendo cristão, é imoral, avarento, idolatra, maldizente, alcoólatra, ladrão, entre outras coisas, esta é a orientação paulina. Paulo deixa claro neste versículo que uma pessoa que não crê verdadeiramente em Deus, dificilmente poderá crer no princípio inalienável do amor como base de qualquer relação, seja ela, comercial, afetiva, moral, espiritual ou financeira. Viver com uma pessoa assim torna a vida uma prisão horrível. Paulo está falando aos crentes de crentes desonestos, de irmãos incrédulos, de falsos crentes. Ele não está se colocando como defensor de uniões evangélicas, mas de uniões verdadeiras e pautadas no vínculo do amor cristão.

Portanto quando o Apostólo Paulo fala de “jugo desigual com os incrédulos” (2Co 6:14), ele se refere à um espírito (um jeito de ser, de pensar). Paulo parece deixar bastante claro em outros textos e epístolas que é principalmente dentro da igreja que precisamos tomar o máximo cuidado com o jugo desigual pela sutileza com a qual essa possibilidade se apresenta. Vejamos mais um texto importante para análise:

Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente.” (1 Timóteo 5:8 - NVI)

Claramente Paulo expõe que não é o fazer ou não fazer parte de uma igreja que torna alguém crédulo ou incrédulo, mas o seu modo de pensar, agir, falar e construir suas relações em relação à Deus e ao próximo.  Com quem um verdadeiro cristão pode então ter uma relação saudável, autêntica? Com quem se deve casar, ou namorar?

Vamos elencar algumas considerações:
1. Não podemos simplesmente nos valer da postura ditatorial do “é proibido”, contudo sabemos que cada ato gera sua consequência. Seria ideal que cristãos se envolvessem com cristãos que tenham os mesmos valores e ideais bíblicos, mas vivemos na ambiência de diferentes culturas e percepções, e isso implica em riscos, em misturas, e quando há mistura, todo cuidado é necessário. Foi dentro desta perspectiva que Jesus orou dizendo: Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno (Jo 17:15 - NVI). Aqui é necessário o uso do discernimento e bom senso. Pois em nosso tempo uma relação aparentemente confiável pode se transformar em um grande “abacaxi”. Quantos crentes estão se separando nos dias de hoje? São as mesmas estatísticas de não crentes. Quantas pessoas estão vindo para a igreja procurando encontrar pessoais confiáveis, éticas, e com valores morais adequados? Infelizmente, tanto na igreja, como fora dela encontraremos aventureiros, gente desnorteada e com espírito avesso aos princípios cristãos, enviados(as) do Maligno para desgraçar relações.

2. Outro problema é que hoje há um cerceamento principalmente entre os jovens nas igrejas, uma espécie de controle emocional além  daquele que a Bíblia permite entre um pastor/líder e sua ovelha, e que no fundo certas formalidades, ou aparências, ou opiniões, ou conveniências, ou ministérios, ou IBOPE eclesiástico, e os gostos familiares sirvam de pretexto para permitir ou não uma relação de namoro ou casamento, quando nossa postura deveria estar calcada na Bíblia Sagrada, que é o nosso guia, é a Palavra de Deus que ilumina todos os nossos caminhos. 

3. É preciso reconhecer que quando duas pessoas se casam, não podem se casar com total disparidade de espírito e consciência. O casamento não é uma aventura, nem um contrato que pode ser quebrado a qualquer instante, é a constituição de uma nova família, o projeto mais sagrado de Deus. Ninguém deve se prender a desníveis grotescos de vontades e desejos, pois isto jamais terminará em um caminho de harmonia entre as partes. Seja qual for o credo, a raça, a religião ou filosofia de vida. É preciso certas similaridades para desenvolver um casamento possível e responsável. As perguntas que os namorados devem responder no período de namoro são:
  1. Qual é o procedimento desta pessoa com seus pais, familiares, amigos?
  2. Tem ética, ainda que não seja um cristão professo, possui princípios dignos?
  3. Tenho confiança, em Deus, que a santidade da minha vida santificará este namoro e converterá meu conjugue?
  4. Sou capaz de inibir investidas sexuais fora da relação matrimonial? Sei manter o espaço adequado entre o sim e o não?
  5. Amo esta pessoa o suficiente para suportar o aperfeiçoamento de seu caráter?
Paulo exorta (ele dá um conselho em 2Co 6:14) aquele que é verdadeiramente crente à não se colocar em jugo desigual”.  Isto é, assim como tomar a ceia para o cristão é uma responsabilidade pessoal, se colocar em jugo com alguém que não vive os mesmos princípios também é. Seja um cristão professo ou não. Esta é uma decisão pessoal, não comunitária. Nenhuma relação de qualquer casal está aberta para o apreciamento de outros irmãos, o que acham ou deixam de achar, sobre isso ou aquilo nele ou nela. Quem está apto para julgar uma relação? Foi como bem colocou uma vez Robinson Cavalcanti, bispo anglicano num congresso de jovens, quando um rapaz lhe perguntou: “O que o senhor acha de um cristão namorar uma moça do mundo?” A resposta de Robinson foi ótima: “Parabéns por sua normalidade. Estaria preocupado se você estivesse namorando uma ET”.

Pra concluir, casamento é uma profissão de fé e amor, geralmente quando duas pessoas se amam verdadeiramente, o amor pode santificar a fé, é o que Paulo nos ensina quando diz: “Pois o marido descrente é santificado por meio da mulher, e a mulher descrente é santificada por meio do marido. Se assim não fosse, seus filhos seriam impuros, mas agora são santos” (1Co 7:14 - NVI)

Já o namoro é o espaço da avaliação de caráter, de procedimento, do jeito de ser de cada um. Casar com crente ou incrédulo não determinará o sucesso de um casamento, mas o fato de que aqueles que querem casar saibam que o amor deve ser a base de tudo entre eles, para alcançarem inclusive a unidade de uma fé perfeita no casamento. O justo também casa pela fé, porém a precondição para uma relação adequada é o amor.

BIBLIOGRAFIA (Matthew Henry’s Concise Commentary on the Whole Bible)
  • Jugo desigual: (ἑτεροζυγέω heterozugeō) significa levar uma canga diferente. A idéia aqui é colocar animais de naturezas diferentes para puxar o mesmo peso ou levar a mesma carga. Os comentaristas concluem que jugo desigual significa todo caminhar onde o amor não nivela a caminhada. Onde não há o princípio do amor (os dois serem mútuos ou “um”) será doloroso caminhar.
  • Todos os textos utilizados são da Nova Versão Internacional.

Bruno dos Santos pastor e teólogo da Igreja Apostólica Vida Nova.

MUITO MAIS DO QUE RETETÉ - A IDOLATRIA DOS “MOVERES”


Acho preocupante a maneira como muitos cristãos lidam com aquilo que chamam de “manifestações do Espírito Santo”. Alguns, são tão dependentes destes “moveres”, que chegam a acreditar que Deus não está presente ou não age quando elas não acontecem. O que a Palavra de Deus afirma é que a maior evidência de que um indivíduo está cheio do Espírito, é quando manifesta em sua vida o caráter de Cristo e não quando sapateia, dança, grita ou rodopia. 

A igreja apostólica do primeiro século sabia que ter a plenitude do Espírito Santo é uma ordem de Deus e não o privilégio de alguns, segundo a Palavra, o Espírito habita em nós 24 horas, todos os dias da semana. Quem caminha em verdadeira comunhão com Deus, esse mover do Espírito e suas manifestações acontecem à todo tempo.

Quantos visitantes já foram à igrejas, onde estes moveres são frequentes e relataram terem visto lá o que viram em reuniões de umbanda e candomblé, com rituais, invocações, mantras, movimentos e danças? Sem falar das “bizarrices” como fogueira santa, sal grosso, banho de descarrego, toalha mágica, meias que abrem caminhos quando vestidas, unção da cola...e vai até onde a imaginação e a ignorância bíblica permitirem. Parece que a fé não é suficiente pra essas pessoas, é necessário sentir, ver, cheirar, provar, tocar. São sub-ídolos, por detrás da idolatria desses “moveres espirituais”.

Alguns destes idólatras chegam a dizer que o culto não foi completo, porque não houve nada demais, além da palavra, dos louvores e das orações. Esquecem que a fé é a certeza daquilo que ESPERAMOS e a prova das coisas que NÃO VEMOS.  Para Paulo andar no Espírito estava longe do reteté..., era preciso manifestar o seu fruto, constituído de amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio

Essa idolatria ao “mover” gera gente descontente e desconfiada dentro da igreja, faz mais feridos e iludidos, do que crentes de verdade firmados na Palavra de Deus. A igreja precisa se desintoxicar um pouco de algumas porcarias e voltar ao Evangelho mais simples e puro de Jesus. Mais próximo da dor do outro, da humanidade do outro, da dura realidade do mundo. Uma fé mais pé no chão e menos cabeça nas nuvens. Uma fé que deseja mais salvação de pessoas, do que visões de anjos, uma fé que deseja mais tirar alguém das ruas e das drogas, do que apenas brigar com o “espírito de Jezabel”. Isso pra não dizer de gente que só faz correr atrás de profecia, revelação, oração de poder, promessas de Deus, etc.

Gostaria apenas de colocar um ponto importante aqui no final do texto. Já presenciei momentos inesquecíveis e pessoais com Deus de profundo mover espiritual. Já vivi intensas reuniões de fé e sobrenaturalidade, e ainda hoje vejo Deus agir de uma maneira sobrenatural incrível, mas esse mover espiritual genuíno, tem que se transformar em ardor, paixão pela Palavra, amor pelas vidas, misericórdia, pregação fervorosa e muito desejo de servir a Deus e ao próximo, este é o caminho certo. 

Aprendi a usar o seguinte critério: Tudo o que eu vejo nos Evangelhos sendo praticado por Jesus, considero como modelo a ser seguido. O que eu não vejo nos evangelhos como prática de Jesus, eu tolero nos limites do bom senso. Bom senso é uma palavra chave em nossos dias. Continuo aceitando em minha vida a ordem da grande comissão, que não foi buscar “moveres” mas: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos". Mt 28:19-20.

Se nessa caminhada aconteceram manifestações sobrenaturais e gloriosas, amém! Mas o meu foco e transformar a vida de uma pessoa, de um discípulo através do ensino das Palavras do Mestre. É uma caminhada que está muito além do encontro do templo, leva tempo, compreensão, exortação e amor. É preciso conhecer, conviver, se alegrar e chorar junto. É muito mais do que uma reunião cheia de “unção”, é muito mais do que reteté...